• Valdemir Pires

Fique em casa! Mude o mundo!

-- Fique em casa!

-- Como assim? Eu tenho que trabalhar!

-- Fique em casa, não vá trabalhar.

Estranho diálogo, pois o comum seria:

-- Vá trabalhar, vagabundo!

-- Ah, tá frio, vou dormir mais um pouco...

-- Vamos, vamos!, vai perder hora.


Trabalhar para sobreviver: necessidade, sina, condição de existência, destino para a imensa maioria. Aí aparece um vírus e ir trabalhar é ir ao encontro da doença e da potencial morte, morte certa se não houverem hospitais equipados para socorrer o número de doentes.


Pronto! O mundo já mudou. Não total, nem permanentemente. Agora é um mundo em que o "animal social" que somos tem que refrear um dos principais elementos de sua essência, é um mundo em que o homo economicus em que o mercado transformou a todos é chamado a uma atitude que o impede de comprar e vender.


Sem conviver com os semelhantes e sem trabalhar para poder comprar ao menos os víveres, como será possível a vida continuar?


Bem, a pergunta é inquietante. Mas o fato é que a expectativa no peito de todos é a de que isso passará, o vírus levará a pior. Verdade que uns milhões morrerão por aí (Eu, não!), verdade que levará um tempo para a economia se reerguer, mas logo todos voltarão à rotina acorda-trabalha-dorme permeada por come-bebe-edevezemquandosediverte. Mas... E se não for assim? Mais: é bom que seja assim? Não seria melhor que, passada a tormenta, fossem repensados a estrutura e os mecanismos da embarcação, assim como a forma de sua ocupação e manejo?


Não a filosofia ou a sociologia (perigosas!), mas um vírus (que não só não é um ser pensante, como sequer é um ser) está criando a oportunidade para refletir sobre as relações entre os homens, necessárias para sobreviver (manter-se vivo, como ente) e para ser (estar no mundo em busca de). Vírus que diz, sem nada falar: "Fique em casa, se não quiser descobrir se há, ou não, vida depois da morte."


Pensar, ou melhor, repensar as relações: oportunidade criada pelo vírus, mas que será aproveitada somente se, em complemento, a mente inquieta se puser a trabalhar. E mente inquieta é aquela com capacidade de se espantar diante o quotidiano, do rotineiro (mente atenta e inquiridora, quase infantil: por que? por que? por que?); mente que, por princípio, se recusa à diminuição do humano pela aceitação da selvageria como padrão de comportamento para sobreviver (matar, se preciso, para comer e procriar) e conviver (ameaçar para não ser ameaçado) com os outros e o mundo (mente civilizada e generosa); mente com disposição para ver onde ainda nada há, mas poderia ou poderá haver (mente aberta e criativa).


A proliferação de mentes atentas e inquiridoras, civilizadas e generosas, abertas e criativas é a condição para a transformação do mundo. Foram e sempre serão essas mentes, juntas mesmo que separadas, a consciência do mundo, a força que fez e faz triunfarem o conhecimento e a sensibilidade que singularizam a espécie humana. Essa proliferação tem se estagnado numa sociedade, como a atual, competitiva a tal nível e com tais finalidades que agora é predatória. A maioria dos seres humanos está submetida a rotinas alienantes e, ultimamente, superestafantes. O "Fique em casa!" devolve, ainda que temporária e precariamente, a oportunidade para que a alienação forçada fique lá fora, permite que, por algum tempo, cada um seja dono de si e possa fazer disso instrumento de retomada. Apesar de que poder e saber aproveitar não é para todos. Então que seja para o máximo possível.


Fique em casa! Retorne a si e aos seus amados e queridos, vá em busca de crescimento e aperfeiçoamento! Exercite a resistência à alienação do trabalho, mas também do entretenimento empobrecedor da alma. Destine tempo para fazer de sua casa um lugar gostoso, acolhedor (organize, reforme, modifique, embeleze); para ler (filosofia, história, biografias, humanidades -- janelas para o conhecimento; literatura, poesia -- claraboias para a sensibilidade) e, quem sabe, escrever algo; para conversar ouvindo o outro (e não querendo sair para dar conta de uma tarefa ou tentando apenas falar); para ver bons filmes e ouvir boa música (nunca estiveram tão à mão, dentro de casa); para conhecer grandes museus (eles estão abertos para visitas virtuais gratuitas), para brincar e resgatar a necessária criança que em cada um alimenta o espírito; para orar em paz e dedicar-se a rituais, a seu modo; para exercitar o corpo sem pretensões performáticas, apenas para sentir-se vivo; para respirar pausada e conscientemente; para comer com calma, quiçá aprender a fazer a própria comida; para cultivar aquela horta ou jardim dos sonhos; para aprender música ou pintura; para, à noite, olhar o céu e identificar constelações ou notar que a lua tem crateras; para, ao acordar, sentir o cheiro do café sem pressa e depois sorvê-lo sentindo o gosto revigorante; para sentir saudades de tanta gente, cujos traços de personalidade atraentes havia esquecido; para fazer da maravilha do acesso à internet um instrumento enriquecedor e não de dispersão e futilidade: evite redes sociais e trocas de mensagens esvaziantes. Cuide, enfim, de corpo, mente, espírito, relações e ambiente como se fosse dono de si e como quem procura fazer de si alguém melhor, e de sua casa e do mundo um lugar mais aprazível.


Fique em casa querendo sair para o mundo, não para engolí-lo ou ser engolido por ele, mas para fazer e deixar fazerem parte da aventura que é a vida nesse mundo. Fique em casa se preparando para isso, acalentando esse desejo, como um virtuose se prepara a vida inteira para umas poucas performances. Fique na casa individual, agora, sabendo que a porta logo vai se abrir para a casa coletiva que é o mundo. Queira muito, ao sair de uma casa para outra, ser alguém melhor, que aproveitou o tempo como dono de si para por em movimento a sua parte da consciência do mundo, a sua mente atenta e inquiridora, civilizada e generosa, aberta e criativa, sustentada por um corpo saudável e mergulhada em relações impulsionadoras do melhor que é possível atingir. Fique em casa e faça isso, se você pode, com a clareza de que se trata de um privilégio ter uma casa, alguma perspectiva e a capacidade necessária, com a consciência de que muitos estão lá fora, para que seja possível você ficar em casa. Fique em casa assim e se transforme. Assim agindo, ajudará a transformar o mundo: a boa e bela casa transbordando, a ponto de inundar o mundo com seu equilíbrio e pequenas alegrias.



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