1. O que o tempo é? (Tempo - Livro I)
- Valdemir Pires
- 3 de mai. de 2020
- 5 min de leitura

Arte: Tempo, Valdemir Pires (colagem de recortes sobre papelão).
Em cena do filme “O diabo riu por último” (1953), de John Huston (1906-1987)/Truman Capote (1924-1984), o personagem Julius O´Hara, interpretado por Peter Lorre (1904-1964), se questiona sobre o que é o tempo, com peculiar graça: “O tempo. O tempo. O que é o tempo? Os suíços fabricam. Os franceses reservam. Os italianos desperdiçam. Os hindus afirmam que ele não existe. E os americanos dizem que é dinheiro.”
À pergunta lançada não é dada resposta, propriamente. Apenas é feita uma lista de supostas reações de alguns povos ao tempo. Mesmo no caso americano, em que se diz o que o tempo é, não se chega a uma definição, propriamente, limitando-se o esforço a uma associação pragmática, questionável por submeter o tempo à reles condição funcional de entesouramento ou acumulação de riqueza.
O que é o tempo, afinal?
Como medida (horas, dias, meses…), sabe-se que é uma simples convenção, não uma substância: o tempo é um procedimento amplamente aceito (porque consistente e útil), inventado pelos astrônomos, para “detectar” a “passagem” sucessiva e incessante das unidades de tempo previamente definidas e fracionadas. Esta bela convenção, fruto da engenhosidade humana, é concebida a partir do movimento, que ocorre, fisicamente (envolvendo corpos), no espaço. O que o relógio conta é o giro completo (por isso o ponteiro percorre 360 graus) da Terra em torno do seu eixo (“contabilizando” um dia); e o que o calendário acumula são giros do planeta em torno do sol. Tempo, então, é movimento (ou evoluções no espaço). Assim, tempo é processo, é algo acontecendo, implica eventos. Eventos astronômicos sucessivos, regulares e imutáveis e, portanto, previsíveis. Eventos perceptíveis quando se olha para o céu com atenção e régua!
Sim, foi necessário olhar para o firmamento – e não para a carteira ou para a conta bancária, inexistentes então – para encontrar o tempo, para inventá-lo, mais precisamente, tal como dele fazemos uso.
É notável que o uso que fazemos do tempo consiste em observar coincidências entre certos eventos estelares (enquanto a Terra vaga comportadamente pela Via Láctea) e os movimentos que fazemos na superfície terrestre (nossas cronometradas atividades). Assim, o autor destas linhas nasceu quando a Terra estava prestes a completar (faltavam menos de três meses) a sua volta de número 1963 em torno do Sol, contada desde o nascimento de Jesus Cristo.
Para datar o momento em que foi escrito este texto (ou quando, exatamente, seu autor se movimentou sobre a superfície terrestre para trazê-lo à luz) é preciso olhar para o céu (e contar as voltas da Terra em torno do Sol; e em torno de si, caso se queira conhecer as horas abarcadas pelo acontecimento) e, adicionalmente, lembrar o Filho de Deus.
Percebem? Isso é o tempo, como unidade de medida que o define: movimento (evolução no espaço) e, acrescenta-se agora, reverência (ao Criador, por meio de homenagem ao Seu Filho).
O tempo, então, tem materialidade (corpos em movimento) e está embebido de espiritualidade (um olhar para o transcendental, como fato ou como crença ou desejo, não importa). Portanto, ao dirigir o olhar para o relógio, na parede ou no pulso, não é em tic-tacs, ponteiros e engrenagens (ou chips), apenas, que devemos pensar, mas numa verdadeira maravilha cósmica e histórica que fomos capazes de codificar e inserir profundamente nas nossas existências. O tempo é manifestação do humano, é uma face da nossa humanidade inquieta, em busca do transcendental.
O que dá materialidade ao tempo (permitindo que seja aquilo que ele é), como se viu, é o espaço. Ele não “é” espaço, mas o espaço é a possibilidade de sua realização. Isso remete à velocidade, que relaciona o tempo ao espaço: quanto tempo transcorre para se sair de um ponto a outro? Claro, isso depende de quão rápido se vá – depende da velocidade.
A velocidade, medição possibilitada pela Física (equação do tempo), considera a rapidez ou duração do movimento tanto do corpo em evolução na superfície do planeta, quanto o movimento do próprio planeta. Se a Terra permanecesse imóvel, a velocidade de um corpo que sai do ponto A e chega ao ponto B em 60 minutos seria apenas igual à distância percorrida no intervalo de uma hora. Mas sabendo-se que a Terra também está permanentemente em movimento, qualquer corpo que se desloca sobre ela terá uma velocidade que precisa considerar este fato. Então, como chegar-se a um tempo-padrão, que sirva de unidade de medida universal, se a velocidade é variável? Dirá Isaac Newton (1643-1727), num esforço para encontrar uma uniformidade para se contar o tempo, para se acertar o relógio universal:
Distingue-se, em astronomia, o tempo absoluto do tempo relativo (…). Pois os dias naturais são desiguais embora se os tomem usualmente como medida igual do tempo; e os astrônomos corrigem esta desigualdade a fim de medir os movimentos celestes por um tempo mais exato. É muito possível que não exista movimento perfeitamente igual, que possa servir de medida exata do tempo, pois todos os movimentos podem ser acelerados e retardados, mas o tempo absoluto deve sempre fluir da mesma maneira. (…) A duração ou a perseverança das coisas é, pois, a mesma, quer os movimentos sejam rápidos, quer sejam lentos, e ela seria ainda a mesma coisa quando não houvesse nenhum movimento; assim, é necessário bem distinguir o tempo de suas medidas sensíveis, e é o que se faz pela equação astronômica.
Esta afirmativa, linda, de levar à perda do fôlego e a uma dúvida desestruturante (Existirá, afinal, um “tempo em si”?), será objeto de tratamento distinto na mente de Albert Einstein (1879-1955): olhando para o céu e detendo-se sobre os raios de luz, ele determinará a morte do tempo absoluto, com sua teoria da relatividade.
Essa conversa pode ir longe, longe e durar... muito tempo.
Saiba-se ou não o que ele é, o tempo parametriza e organiza nossas vidas. Ela é compreendida e controlada a partir dele. Mas excluída sua definição como unidade de medida a partir do movimento (deslocamento no espaço), dizer o que é o tempo não é nada fácil ou simples; e tendemos a abandonar o esforço de fazê-lo se não somos obrigados a isso, se não se impõe que matemos esta charada eterna. Seguimos em frente vivendo o tempo que nos cabe, até que nossa quota termine, em algum momento incerto e não sabido. Para cada um de nós, a morte é o fim do tempo, mesmo que saibamos que existe tempo após o nosso tempo. O tempo, de fato, ignora o tempo que nos pertence, ignora-nos totalmente. O que faz do tempo algo ao mesmo tempo medonho e belo. Medonho porque coloca-nos diante de uma incógnita dolorosa e apavorante, botando-nos para correr sabendo que a chegada é tétrica. Belo porque faz com que nos agarremos a ele como a criança ao doce e ao brinquedo, a ponto de inconfessavelmente nos imaginarmos eternos, ainda que sem corpo, no além, após a morte.
Arte de Valdemir Pires
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